Metodologia de Identificação do Tipo Documental
Luciana Duranti introduz no Canadá e Estados Unidos,
esta nova abordagem do uso da diplomática aplicada à pesquisa para definição de
requisitos de produção de documentos eletrônicos.
No contexto da identificação, a etapa da
identificação de tipologias documentais encontra na abordagem da diplomática
contemporânea seus fundamentos teóricos e metodológicos, demonstrando a efetiva
contribuição desta disciplina para a construção teórica da arquivística.
A diplomática revisitada pela arquivística encontra
na identificação, um novo espaço para o debate científico em torno do documento
de arquivo, justificando uma extensa produção científica sobre os aspectos que
as relacionam.
Entretanto, a identificação de tipologia documental
enquanto tema estreitamente vinculado à diplomática, não vêm sendo
suficientemente estudado pela área. Os modelos de processos e dos instrumentos
de identificação de tipologias documentais encontrados na literatura
arquivística, embora bastante numerosos, são produtos de estudos de caso, nos
quais se encontra fragmentos de contribuições teóricas. Os aspectos teóricos
que envolvem a metodologia da identificação e, especificamente, da
identificação de documentos realizadas nos parâmetros da tipologia documental,
estão pulverizados na literatura, justificando a necessidade de sistematização
dos fundamentos teóricos, procedimentos metodológicos e instrumentos que
envolvem a construção teórica desta metodologia.
Neste cenário, algumas questões se colocam para a
reflexão. Pode-se considerar a identificação como uma função independente no
âmbito da metodologia arquivística? É possível normalizar os procedimentos e os
instrumentos de identificação, utilizando os parâmetros da diplomática
contemporânea, para definir requisitos de gestão de documentos e de tratamento
de documentos acumulados em arquivos?
O Brasil recebeu a influência desta nova corrente
teórica que se formou, mas o assunto vem sendo tratado por um reduzido número
de estudiosos e por um, ainda inexpressivo, segmento profissional. Os processos
de identificação desenvolvidos por arquivos brasileiros não foram
suficientemente analisados e, sobretudo, os parâmetros conceituais que
fundamentam a identificação dos documentos no contexto destes procedimentos,
aspectos que justificam o escopo desta pesquisa, cujo objetivo é sistematizar
os fundamentos teóricos e metodológicos da identificação, especificamente na
perspectiva da arquivística brasileira.
A identificação do tipo
documental
Identificação vem a
ser o ato de determinar a identidade do documento de arquivo, de caracterizar
os elementos próprios e exclusivos que conferem essa identidade. Significa
determinar estes elementos que o individualizam e o distinguem em seu conjunto.
O processo de produção deste conhecimento implica em reunir informações sobre o
documento em seu contexto de produção e descrever estes elementos que formam
sua identidade, que revelam o seu vínculo arquivístico. Esse conceito,
discutido por Luciana Duranti (1997), é o componente essencial do documento de
arquivo, que revela sua verdadeira natureza, que determina sua identidade, pois
é definido pela sua ligação com o órgão que o produziu. Nesse sentido, é um
trabalho de pesquisa e de crítica sobre a gênese documental.
A identificação é
uma fase independente da metodologia arquivística, qualificada como do tipo
intelectual, a qual consiste em estudar analiticamente o órgão produtor e a
tipologia documental por ele produzida e que antecede as demais funções
(produção, avaliação, classificação e descrição).
Dicionário
Brasileiro de Terminologia Arquivística (2005) que também considera a
identificação como uma fase do processamento técnico dos arquivos, definindo-a
como o “[...] processo de reconhecimento, sistematização e registro de
informações sobre arquivos, com vistas ao seu controle físico e/ou
intelectual”.
Identificação,
consiste em estudar analiticamente o documento de arquivo e o vínculo que
mantém com o órgão que o produziu. “Este conhecimento sobre o órgão produtor
combinado a um processo analítico dos documentos produzidos, a partir do
conhecimento das suas características internas e externas, permite chegar à
identificação das séries documentais” (LÓPEZ GÓMEZ, 1998, p.39).
A pesquisa pode ser
desenvolvida durante todas as fases do ciclo de vida dos documentos, podendo,
portanto, incidir sobre o momento de sua produção, para efeito de implantação
de programas de gestão de documentos, ou no momento de sua acumulação, para
controlar fundos transferidos ou recolhidos aos arquivos.
Durante o processo
de identificação, as características da proveniência e de organicidade devem
ser recuperadas, se o objetivo for o tratamento de massas documentais
acumuladas e garantidas, quando a identificação for efetuada em documentos na
fase de produção, para fins de implantação de programas de gestão de documentos.
A identificação
consiste na pesquisa sobre os elementos implicados na “[...] gênese do fundo: o
sujeito produtor e o objeto produzido”, entendendo por “[...] sujeito produtor,
a pessoa física, família ou organismo que produziu e/ou acumulou o fundo e por
objeto produzido, a totalidade do fundo e cada uma dos agrupamentos documentais
que o integram”.
A pesquisa requer a
busca de informações em fontes específicas, sobre o órgão produtor (contexto) e
sobre os documentos (tipologia documental), estejam eles em fase de produção ou
de acumulação. Aquelas informações são os “[...] elementos que caracterizam
este contexto, no desempenho de competências e funções específicas deste órgão
produtor e da tipologia documental, que registra os procedimentos administrativos
realizados para cumpri-las”.
O primeiro momento
da pesquisa consiste em identificar o órgão produtor, o elemento orgânico
(estrutura administrativa) e elemento funcional (competências, funções,
atividades, tarefas) que o caracteriza.
A identificação do
elemento orgânico significa reconhecer o órgão produtor dos documentos. O
elemento funcional está representado pelas funções e atividades administrativas
desempenhadas pelo órgão.
É necessário reunir
todas as informações existentes sobre a evolução orgânica do sujeito produtor;
disposições que regulam suas competências, normas e procedimentos que
condicionam a aplicação real destas competências, normas que controlam a
circulação interna e externa dos documentos na fase de produção, ou seja,
“[...] toda a circunstância implica o estudo institucional [...] Este estudo
permite o conhecimento da estrutura do órgão, seu funcionamento interno, suas
competências e suas transformações históricas”.
Este estudo das
características que apresentam o órgão produtor dos documentos se viabiliza a
partir dos dados encontrados em vários tipos de fontes de informações, que
variam de acordo com a natureza do órgão, se público ou privado ou em função do
momento de realização da identificação, se para tratar documentos em fase de
produção ou de acumulação.
A informação sobre
os elementos orgânicos e funcionais obtém-se através dos próprios documentos e
da legislação. No caso de órgãos públicos, o estudo de todos os textos legais e
normativos pertinentes à estrutura e funcionamento durante sua existência,
permitirá conhecer as competências, funções e atividades desempenhadas que
ficaram registradas nos documentos produzidos. São as normas oficiais que
dispõem sobre a estrutura e funcionamento do órgão produtor, como leis,
decretos, portarias, regulamentos de serviços, entre outros. Entretanto, podem
ocorrer problemas nesta pesquisa.
Para implantar
programa de gestão documental, a identificação dos órgãos produtores e de suas
atribuições, tem por finalidade reconhecer no texto legal, a competência,
funções, atividades e tarefas que associam à tipologia documental produzida
neste contexto. Estes dados ficam registrados no seguinte instrumento:
Exemplo:
Quadro 1: Estudo de
Identificação de Órgão Produtor Sefin – Pms.
Competência (Atribuição) Auxiliar o Prefeito na implantação da
política fiscal e financeira do município. (Art. 50, Parag. I, item B)
Função Gerenciar
o cumprimento das metas estabelecidas no Plano Plurianual de Governo, na
respectiva área de competência; (Art. 73, Parag. I, item A)
Atividade Exercer o controle da
arrecadação dos Impostos Municipais, Contribuição de Melhoria e da Taxa de
Licença de Localização e Funcionamento; (Art. 80, Parag. I)
Tarefa Analisar e
quando for o caso fundamentar, a fim de subsidiar o processo decisório da
autoridade competente, sobre alterações, cancelamentos, restituições, isenções,
imunidades e lançamentos de tributos; (Art. 80, Parag. IV)
Tipo Documental Processo
de isenção/redução de IPTU
Fonte: Rodrigues e Garcia – 2012.
As fontes de informações utilizadas nesta fase, além das leis, decretos, portarias, regimentos e regulamentos internos, são as consultas diretas às pessoas que estejam tramitando e produzindo os documentos, ligando-os às funções e atividades que produzem os documentos. Uma vez identificada a unidade administrativa e os tipos documentais em que se materializam de suas competências, funções e atividades, será necessário estudar as normas que regulamentam os processo de tramitação que teve cada tipo documental.
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